sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Nosso (não) mundo

No nosso mundo, amor, a guerra seria por beijos, toda musica seria samba e todas as flores seriam rosas. No nosso mundo, amor, não existiria um poder maior e todas as classes seriam sociais. Nesse mundo, amor - nosso -, o sol iria aparecer todos os dias iluminando nossa cama e lá fora o barulho das buzinas seria melhor que a quinta sinfonia de Beethoven. Todo dia seria domingo e todas as coisas teriam gosto de bolo de fubá. No nosso mundo, amor, não teria tanta hipocrisia. Não deixaria nosso mundo ser cinza como esse, te pintaria o arco-íris todos os dias se fosse preciso. Ah, se eu pudesse ter um mundo pra transformá-lo em nosso...

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Nós nos cobrimos de amor-fino, amor-vistoso. Transvestismos a paixão-desajeitada. E assim, prosseguimos, tigres em pele de gatos.

Sobre Elizabeth

Venha cá, vou lhe falar de Elizabeth. Mulher extraordinária, um conjunto de olhos, boca e seios maravilhosos. Ela era refinada embora sua mente e seu corpo fossem mais sujos que um banheiro público. Seus cabelos arrebatiam o brilho do sol e em seus olhos ela carregava toda uma constelação de estrelas.
Ela apareceu desfilando nas ruas de Viena semana passada. Uma semana causando pertubações nos moços dali. Apesar de todos a desejarem, Elizabeth só tinha olhos pra ela mesma. Parecia até hipnotizada com sua própria beleza, mas era de ficar. Não se espante com as minhas palavras deslumbradas, você não a viu. E se visse, estaria no meu lugar observando Elizabeth todos os dias em seu trajeto até o padeiro e depois escrevendo sobre sua tamanha beleza.
Ah, eu não posso me esquecer de colocar aqui que um dia nos trombamos. Ela fitou meus olhos com um ar de espantada e eu fugi de seu olhar assim como o diabo foge da cruz (força de expressão). Fugi, porque sabia que dentro de seus olhos havia a doçura de uma moça e o desejo de uma mulher. Aquele olhar que me fitava podia me matar. Elizabeth chegava a me dar medo, suas curvas eram sinuosas e sua pele branca parecia ser gelada como a neve.
Amanhã pela manhã, quando Elizabeth passar frente à minha janela torno a escrever ou a me imaginar entrando em um lugar que muitos já entraram em Elizabeth.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Quatro e cinquenta

Não cabe aqui dizer minha idade ou meu nome. Sou um velho maltrapilho e por aqui não vivo mais de quatro anos e cinquenta dias. Não sou um homem assalariado. Faço um bico aqui, um ali e outro acolá. Não gosto de luxúria, me contenho com poucos trocados se eles sustentam meus vícios.
Fim do mês chegara, (essa época era dura) e eu mal podia pagar o café pela manhã. E procurava um bico aqui, um ali e outro acolá. Maldita noite aquela em que gastei mais do que devia. Nunca soube guardar ou administrar grana, na verdade, não dava nem tempo. Era dinheiro em mãos e eu em bares.
Aquele era um típico dia em que eu revirara o que eu chamo de casa para achar algumas pratas. Por sorte, achei quatro e cinquenta no bolso de uma camisa velha. Sem pensar duas vezes fui logo ao bar da esquina e pedi uma dose de uma cachaça barata que vendiam por lá. Sentei-me em uma mesa de fundo e com os trocados que me sobraram comprei uns cigarros picados... Chorei por quatro horas e cinquenta minutos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Querida Clara,

hoje fui convidado para um jantar na casa de Margareth e Caetano (que sentem sua falta), não os vejo à tempos. Estou esperando dar minha hora pr'eu poder tomar banho, já até me acostumei a não ter camisas engomadas e sapatos limpos.  Mas mesmo depois de quase quarenta anos não me acostumei com essa saudade que me clausura. Não me leve a mal Clara, mas é melhor você aí. Você é doce demais pra ver o que este mundo (hospício) se tornou. Estava lendo o jornal de semana passada (costume que eu não perco nunca) e toda essa politicagem, todos esses assassinatos me chocaram. Seus olhos não mereciam ver isso. Se você estivesse aqui ficaria bem triste ao ver a quantas anda a vida. É tanta hipocrisia, meu bem. Mas penso que é lindo aí, onde você está. Deve tocar "For Me and My Gal" e ter cheiro de perfume. E todos aí devem te adorar, porque com a sensibilidade que tens... Ah Clara, estou entre suspiros, tento ser forte mas as palavras "forte" e "eu" não condizem. Imagino que logo-logo estarei junto à ti. Aguarde-me com um punhado de rosas brancas, meu amor.
Num parágrafo começou uma história nova. Prolongou-a nas reticências. Não-contente com a pausa da vírgula esticou-se ao ponto e vírgula. Tanto esforço pra nada, morreu de interrogação.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

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Maria,

Pensei que nunca mais irias ser a dona de minhas palavras. Talvez não queiras nem ver minha caligrafia torta, mas eu preciso lhe contar como está sendo esse mês sem você.
A casa está uma reviravolta e acabei por perder o controle da tevê. Os discos empoeiraram junto com o restante das coisas. Maria, as madeiras estão ocas e isso fede. As paredes abstruíram um tom cinza e os móveis o mofo.
Darling, isso são apenas superficialidades. A casa, uma banalidade. O fato é que aqui dentro está uma reviravolta. Maria, eu sempre lutei pra nunca sentir o amargo desses dias sem você. Os mesmo estão sendo tortuosos e a máquina de escrever não largo. Foram inúmeras cartas escritas não enviadas. Cartas de "volta pro seu Zé, Maria" "tá doendo Maria". Isso tudo pode parecer meio desesperador, mas eu não consigo não ser assim. Nunca fui tão fraco e vazio.
Queria sentir ódio de ti, mas dizem por aí que ódio é o princípio do amor. Estarei então destinado a te amar sempre, Maria?
Talvez seja bobeira demais eu amar tanto, amar esse sotaque seu de lugar-nenhum, amar o jeito dos teus desenhos e amar o doce dos teus lábios. Mas eu não sei fazer nada à não ser te amar. Eu te amo Mariazinha, e não tenho mais o que escrever.
P.S: guarde essa carta junto as outras na caixinha encima do teu armário que amanhã vou praí ver se ela tá lá mesmo. Sem complexidades, só me deixa entrar (e ficar).
Um beijo
teu  Zé.


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Eu sou uma pergunta

Pareço carregar o fardo do mundo nas costas. Me sinto um chinelo velho, esquecido. Vivo de lembranças de pés novos à me calçar. Sorriso fraco, olhos murchos, mãos cansadas e mente frustada formavam uma massa deplorável - eu -. Nunca hei de encontrar alguém que se encha em mim. Todos ali pareciam ser humanos demais. Meio típicos da raça, procuradores da almejada felicidade, cheios de patologias loucas, crenças inúteis, cheios de pressa e exigências. Ninguém com esse perfil se adequava à mim. Eu bebia, bebia demais. Cachaça era doce perante ao amargo da minha vida. A sobriedade era algo que eu queria longe. Era uma pergunta sem resposta. E eles? Eles não eram culpados do meu fracasso, a culpada era eu. A culpada sou eu.